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ZONA MÓRFICA
Cleber Pacheco

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Zona Mórfica
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Parecia
um beco. A pequena rua, na medida em que se alongava, era dividida
simetricamente por quatro postes enterrados ao final de quatro
quebra-molas. O intervalo, de um poste ― ou de um quebra-molas ― a
outro, era de três casas. As casas, simples e de arquitetura humilde,
possuíam dois andares. Algumas passaram por reformas, retocando suas
frontes, embelezando-as em alguns casos, desgraçando-as em outros. Havia
doze casas em cada margem da rua. Quatro delas eram privilegiadas: as
que marcavam as esquinas. Essas contavam com quintais e garagens, além
de mais espaço para a cozinha e banheiros. Na divisa entre o primeiro
andar e o segundo, em todas elas, havia azulejos, como se fosse um
padrão da rua; nenhum morador poderia alterar aquela configuração. Mais
acima, havia fios pretos de telefone e de energia que, como as artérias
que se alastram pelo corpo, provinham dos postes para todas as casas.
Por pequenas telhas da cor de barro, e bem produzidas, formavam-se
telhados; em uma dessas coberturas, estavam Dado e Enzo, apreciando a
vista acinzentada do horizonte da Zona Mórfica.
― É bom estar aqui. Não é, Dado?
― É! Primeira, de Luxo! É tudo igual. As casas, os
postes, os carros, o prédio de Mônica ali ― Dado apontou para longe
―, tudo igual.
― Só que terrivelmente cinza!
―
Isso! O que é isso? Neblina?
― Não. Nem sei se existe neblina
cinza, aliás, aqui nem deve existir neblina. Os carros devem estar
aí porque realmente devem estar, entende?
― Certo
―.
Dado chamou a atenção de Enzo para um Ford Focus estacionado à
frente de sua casa
―
Esse é o de André. Ele realmente dormiu por aí hoje.
― Isso confirma minhas teorias
―
Enzo gracejou.
―
Você não sentiu ainda? É como se não tivesse vento...
― É mesmo
― Dado franziu a testa
― , não consigo ouvir nenhum som.
Tudo é muito parado... como se o mundo estivesse morto.
― O mundo, pelo menos grande parte
dele, está dormindo!
Dado permaneceu sentado no teto, junto a
Enzo, com os braços envoltos às pernas, refletindo sobre a
perseverança de seu colega e sobre sua descoberta espantosa. Ergueu
a face ao céu sem nuvens e o observou com interesse. A atmosfera do
planeta, a fina neblina que rodeava todos os espaços da Zona
Mórfica, a lua, a árvore ancestral do final da rua, tudo era um
pouco fora de contraste ― feito televisões com falha nos tubos que geram a
imagem
―,
e cinza; como se alguém tivesse passado uma grafite na imensa
corporatura do mundo. Sentiu-se no universo de “A Lenda do
Cavaleiro sem Cabeça”
―
o de Tim Burton, obviamente.
Algo emitiu um ruído agudo e embolado à
esquerda de Dado. Lembrava uma menina virgem histérica se afogando
em uma piscina qualquer.
― Lá vem a coruja
― Disse Enzo.
― Não tenha medo!
Do alto dos galhos da árvore plantada, há
séculos, no final da rua, despencou uma massa densa em tons confusos
de azul. Era como se minúsculas luzes azuladas piscassem
aleatoriamente dentro da coisa. A massa azul caiu em queda livre por
alguns minutos, mas retomou vôo e empinou em direção a Enzo e Dado.
Este último percebeu então, com a aproximação do ser, que a massa
azulada era uma coruja, e que possuía aquela roupagem por estar na
Zona Mórfica.
― Os animais estão nos dois
planos simultaneamente, Dado. Mesmo quando estão acordados.
― Aquela coruja tá acordada?
― Claro! E provavelmente caçando.
A coruja rasgou o céu em direção ao final
da rua, passando muito próximo aos rapazes.
― Quer dizer que os animais ficam
azulados?
― É... se você for até minha sala,
vai ver o meu “azuladinho” dormindo.
― Mas feito a coruja? Quer dizer...
não dá pra perceber os olhos, a boca, nada? Apenas o formato define
se é uma coruja, cachorro etc?
― É! O resto é essa “fluorescência”
azulada. Na verdade, Dado, o que eu chamo de “azulados” são as
pessoas que aparecem na Zona Mórfica sem precisar passar pelo que
nós passamos!
― Peraí! Eu estou tentando
controlar isso tudo faz uns quatro meses!
― Eu sei. Mas essas pessoas não percebem que estão
aqui. A imagem delas aparece aqui o tempo todo. Ficam com uma
fluorescência
―
Enzo fez o sinal de “abre aspas” com as mãos
―
azul muito forte. Sabe Jonatan, o jogador de vôlei? Se você for até
a casa dele agora, vai entender o que estou dizendo.
― Deixa pra lá!
Enquanto se deleitavam mais uma vez com o lugar,
palavras jorraram da boca de Dado:
― Deixa eu ver se posso fazer o que
eu quiser, como você disse!
― Pode sim... não se esqueça...
você está...
Dado marcou passo pelos telhados como um
guerreiro grego a caminho do exército inimigo. Iniciou uma corrida
por cima das casas; tomava mais e mais distância de Enzo na medida
em que as cobertas passavam. Ao final da cobertura da décima casa
―
das doze daquele lado
―,
saltou firme atrás da coruja, e voou tão seguro quanto ela. Enzo, de
longe, apenas observara.